ALTA TEMPERATURA
BÁRBARA PENAFORTE
“A cerâmica tem a sua própria linguagem e leis inerentes, e as palavras têm as suas, e nenhuma pode ser limitada pela outra” (Edmund de Waal, “A lebre de olhos de Âmbar”)
Quando uma técnica se torna arte? Para o escritor e ceramista britânico Edmund de Waal, a cerâmica e a porcelana não se resumem a um meio de criar objetos úteis ou decorativos; são, antes, uma linguagem que comunica através do toque, das texturas, das cores e dos ritmos. Em cada peça há uma espécie de poema manual por meio do qual o ceramista constrói a sua poética.Nos últimos três anos esta linguagem, desenvolvida por Bárbara Penaforte desde 2018, vem assumindo o protagonismo da sua produção. O resultado reflete-se em peças cuja tridimensionalidade se distancia dos trabalhos gráficos — seja na estamparia têxtil ou nos decalques em porcelana — que caraterizaram o seu percurso ao longo de uma década. Dessa forma, a exposição “Alta temperatura” marca o momento de viragem de Penaforte enquanto designer para ceramista.
Na sua feitura, a modelagem é a técnica escolhida pela artista no seu diálogo com o barro. Amassar, esticar e construir são gestos que não apenas definem as formas, mas também evidenciam a natureza mutável do material. Destaca-se, ainda, a pesquisa de Penaforte com diferentes argilas, que resulta em peças com diversas cores e texturas.
Além do processo manual e das diferentes respostas que cada argila fornece, chama a atenção o uso de ferramentas inusitadas. Com elas, Penaforte amplia a gestualidade ao esculpir no barro relevos, padrões, furos e rasgos — vestígios que integram até mesmo o “erro”. Nada fica de fora; o diálogo entre a ceramista e a matéria é totalmente exposto, somando-se às transformações e surpresas que apenas o forno em alta temperatura é capaz de revelar.

Melina Martinho